Por Cauã Peres (RR)
Criado em agosto de 2024 no Abrigo Rondon 1, em Boa Vista (RR), o Coral da Esperança reúne cerca de 20 pessoas refugiadas e migrantes, entre idosos, adultos e jovens, e integra as ações do Projeto Gestão de Abrigos – uma parceria entre a AVSI Brasil e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A iniciativa utiliza a música como ferramenta de acolhimento, fortalecimento de vínculos e valorização cultural dentro do abrigo.
Os ensaios acontecem semanalmente ou a cada 15 dias, de acordo com a rotina da comunidade, e o coral costuma realizar apresentações internas no próprio abrigo. Além do caráter cultural, a atividade também contribui para a redução do isolamento e de conflitos, além de oferecer um espaço seguro de convivência para diferentes faixas etárias.
Segundo Rodrigo Soares, assistente de Proteção de Base Comunitária da AVSI Brasil e responsável pela criação do coral, a iniciativa surgiu a partir de uma percepção de que o canto já fazia parte da vivência dos moradores. “Quando cheguei ao abrigo, percebi que muitas pessoas gostavam de cantar e tinham uma relação muito forte com a música. A ideia do coral nasceu dessa escuta e da vontade de criar algo que ajudasse a comunidade a se sentir melhor e mais acolhida”, explica.
Rodrigo destaca que o coral também tem um papel de prevenção dentro da lógica da Proteção de Base Comunitária. “A música ajuda a diminuir a ociosidade, fortalece os vínculos culturais e ajuda a criar um espaço para que possam se expressar. É uma forma de prevenção, principalmente em um contexto de vulnerabilidade”, afirma.

Entre os participantes está Del Valle Yanitza, de 46 anos, que carrega uma trajetória marcada por transformações, reconstruções e descobertas. Ela viveu por cerca de seis anos com deficiência visual ainda na Venezuela, período em que conheceu o marido, Pablo Antônio, antes de vê-lo pela primeira vez.
O primeiro encontro visual entre os dois aconteceu já no Brasil, após a cirurgia que devolveu sua visão, um momento que ela descreve como profundamente emocionante. Foi também aqui que Del Valle viu o rosto da neta pela primeira vez, experiência que marcou de forma definitiva seu processo de retomada da vida.
Durante esse período de adaptação e cura emocional, a música teve um papel fundamental. No coral, ela encontrou um espaço para expressar sentimentos, aliviar a tristeza e fortalecer
a mente. Ela conta que sempre teve relação com o canto, principalmente em família, mas que a experiência no abrigo ganhou um novo significado. “Quando eu canto, eu me sinto mais liberada. Quando estou triste, eu canto e me sinto bem. O coral me ajudou muito a distrair a mente”, relata.

Del Valle chegou ao Brasil em setembro de 2024, ao longo de sua trajetória como migrante e refugiada enfrentou desafios e conseguiu encontrar forças para continuar em sua caminhada. A família e o coral tiveram papéis fundamentais para isso, para ela, o coral também é um espaço de aprendizado coletivo, especialmente para os mais jovens. “Aqui estamos como uma família. O coral ensina a compartilhar, a respeitar e a valorizar o talento de cada um”, afirma.
Atualmente, ela já embarcou para a nova fase de sua vida. A interiorização é um marco muito importante: Del Valle e sua família saíram de Boa Vista com destino ao estado do Mato Grosso. Ao se despedir da atividade, ela deixa uma mensagem para outras pessoas que passam pelo abrigo. “É preciso ter paciência, respeito e aprender a conviver. Tudo acontece no tempo certo”, diz.
A iniciativa do Coral da Esperança reforça a importância de ações comunitárias no fortalecimento do convívio, na preservação cultural e na promoção do bem-estar emocional de pessoas refugiadas e migrantes, consolidando a música como uma ferramenta de proteção e cuidado coletivo no Abrigo Rondon 1.
