Brasília recebeu o seminário “Promoção e Integração Socioeconômica de Refugiados e Migrantes Venezuelanos no Brasil: Projeto Acolhidos por Meio do Trabalho”. O evento, realizado dia 24, reuniu representantes de organizações internacionais, governo, sociedade civil, empresas e universidades para discutir os mais recentes resultados e futuros caminhos de parceria na integração socioeconômica de migrantes e refugiados venezuelanos no país.
Realizado na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o encontro promoveu um espaço de diálogo entre os principais atores envolvidos na resposta humanitária venezuelana no Brasil, com destaque para o papel das parcerias multissetoriais na construção de soluções dignas, sustentáveis e benéficas para todos.
A abertura do seminário contou com a participação de representantes de diferentes esferas institucionais. Estiveram presentes Dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da CNBB, Eduardo Brasileiro, diretor de Parcerias com a Sociedade Civil da Secretaria-Geral da Presidência da República, e Federico Ciattaglia, ministro conselheiro da Embaixada da Itália, reforçando o caráter multissetorial da iniciativa e a relevância do tema na agenda pública e internacional.
Durante o seminário, a diretora técnica da Pólis Pesquisa, Bertha Maakaroun, apresentou os resultados mais recentes do projeto Acolhidos por Meio do Trabalho. A iniciativa é implementada pela AVSI Brasil e parceiros no âmbito da Operação Acolhida desde 2019, com o objetivo de melhorar as condições de vida e promover a dignidade de pessoas refugiadas e migrantes no Brasil por meio da capacitação e inserção laboral.
Fabrizio Pellicelli, presidente da AVSI Brasil comenta que: “O diferencial da nossa atuação reside no equilíbrio entre a inteligência das ações e a afetividade com o próximo, sustentadas por uma forte tenacidade operacional. No Brasil, percebemos que esse elemento solidário é compartilhado por todos — do setor público às empresas e sociedade civil —, o que potencializa a integração desses migrantes e refugiados.”
Resultados da pesquisa
A mesa de apresentação dos resultados reuniu diferentes vozes envolvidas na implementação do projeto, incluindo Fabrizio Pellicelli, presidente da AVSI Brasil, Irmã Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH), além de relatos de participantes do projeto, como Jeisxon Muñoz, que compartilhou sua trajetória de integração no Brasil.
“Trabalhamos com três dimensões: econômica, acesso a direitos e capital social. Hoje, 70% das famílias alcançaram autossuficiência econômica, com renda suficiente para cobrir despesas e, em alguns casos, poupar. Também vemos avanços no acesso à escola e à saúde, além de um nível alto de integração social, com cerca de 80% das famílias se considerando integradas à sociedade brasileira”, afirma Bertha Maakaroun.
A pesquisa de avaliação de impacto apresentou resultados de acompanhamento longitudinal com famílias interiorizadas de 2019 a 2025, evidenciando avanços consistentes na integração socioeconômica. Entre os principais dados, destacam-se o aumento do emprego formal, a redução do desemprego a níveis inferiores à média nacional, crescimento de 33% na renda familiar e o fato de 70% das famílias terem alcançado autossuficiência econômica.
Além disso, cerca de 90% das pessoas relataram sentimento de felicidade e 88% afirmaram estar satisfeitas com a qualidade de vida no Brasil, evidenciando os efeitos de um processo integrado de acolhimento, proteção, promoção e integração socioeconômica de pessoas refugiadas e migrantes venezuelanas.
“A estrutura e o modelo que o Brasil oferece ao imigrante são fundamentais. Foram oferecidos cursos de capacitação pessoal e, até agora, tivemos treinamentos na área de finanças e empreendedorismo gastronômico. Ontem, inclusive, tivemos um curso de panificação que foi excelente e muito integrado; todos participaram e foi um momento lindo. Além disso, as aulas de português têm nos ajudado bastante, permitindo um aprendizado diário não apenas para os adultos, mas para todos”, relata Jeisxon Muñoz, acolhido há 2 meses na Casa Bom Samaritano e já posicionado com repositor em uma rede de supermercados.
Diálogo com atores-chave e integração nas cidades de acolhida
No diálogo estruturado entre os principais atores envolvidos no Projeto Acolhidos e na resposta humanitária venezuelana no Brasil foram destacadas contribuições complementares entre os diferentes setores: organizações internacionais reforçaram o papel da cooperação técnica e da produção de dados; o setor público destacou a interiorização como estratégia de acesso a direitos; a sociedade civil evidenciou a importância da acolhida e do acompanhamento das famílias; e o setor privado apresentou a empregabilidade como eixo para a autonomia e integração.
O diálogo contou com a participação de representantes de organismos internacionais e do poder público, como Maria-Eliana Barona, representante adjunta do ACNUR no Brasil, Thaís Senra, oficial nacional de projetos da OIM, e Regis Spíndola, diretor do Departamento de Proteção Social Especial, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), que destacaram desafios e avanços na resposta humanitária e na integração de migrantes no país.
Segundo Regis Spíndola, os impactos refletem o sucesso da estratégia brasileira: 90,7% declaram que estão felizes ou muito felizes. Isso é muito significativo, mostra que funciona. Claro que há fragilidades e necessidade de mais investimento, mas as equipes em todo o Brasil estão entregando resultados positivos. A análise demonstra como o acesso ao trabalho tem contribuído para a reconstrução de trajetórias de vida e a importância do envolvimento comunitário e de múltiplos atores para a integração nas comunidades de acolhida.
A programação também abordou o papel das cidades de acolhida e da inclusão produtiva, com contribuições de Elisandra Roldo, da Cooperativa Central Aurora Alimentos, sobre a inserção laboral de migrantes, e de Valdeci Ferreira, responsável pela metodologia da Casa Bom Samaritano, que destacou a importância do acolhimento estruturado e do envolvimento comunitário no processo de integração.
Impacto positivo
Ao longo do evento, foram compartilhados ainda os principais impactos e aprendizados do projeto, evidenciando a articulação entre setor público, iniciativa privada e sociedade civil como caminho para um acolhimento integral, com acesso ao trabalho e fortalecimento do protagonismo das famílias migrantes e refugiadas.
Uma das principais vozes no Brasil no tema da migração e parceira da AVSI Brasil, a diretora do IMDH, Ir. Rosita Milesi, reforçou que o sucesso do acolhimento reside na conquista da autonomia pelas famílias: “Nosso ponto de chegada, e onde realmente desejamos que as famílias migrantes alcancem, é a plena integração. O que nos move é ver essas pessoas, que muitas vezes chegam em situações de extrema vulnerabilidade, conquistando sua autonomia e se tornando parte ativa da nossa sociedade. A proteção formal é dever do Estado e da legislação, mas a sociedade civil e as instituições religiosas têm o papel fundamental de tornar essa acolhida humana e próxima. O percurso da integração é, afinal, o que dá sentido a todo o nosso trabalho operacional e humanitário.”
O encontro reuniu cerca de 70 participantes, entre representantes de governos, embaixadas, agências das Nações Unidas, organizações da sociedade civil, setor privado, além de colaboradores e parceiros da AVSI Brasil e do IMDH, consolidando o seminário como um espaço de articulação e construção conjunta de soluções para a integração de migrantes e refugiados no Brasil.











