O que começa como um jogo de futebol pode abrir caminhos que vão além do campo. Em contextos de migração e refúgio, o esporte se torna uma linguagem comum, capaz de aproximar pessoas, criar vínculos e reconstruir formas de pertencimento.
Acolhimento e convivência
Em Boa Vista – RR, onde milhares de migrantes e refugiados são acolhidos ao chegarem pela fronteira com a Venezuela, o acesso à cidade, às relações e aos espaços de convivência ainda é atravessado por barreiras. Parte dessas trajetórias começa nos abrigos da Operação Acolhida, onde a AVSI Brasil atua no acolhimento e no acompanhamento das famílias. É nesse contexto que o Klabu Clubhouse acontece, utilizando o esporte como ponto de encontro entre diferentes histórias, culturas e trajetórias.
Esporte como linguagem de integração
O projeto surge a partir de uma necessidade: criar espaços de encontro entre pessoas de diferentes origens, reduzindo o isolamento e fortalecendo o sentimento de pertencimento em um contexto marcado pelo deslocamento. Nesse cenário, o esporte deixa de ser apenas uma atividade e passa a atuar como ferramenta de integração comunitária, aproximando a população acolhida da população local e fortalecendo vínculos sociais.
“O esporte é uma linguagem universal. No futebol, por exemplo, não importa se a pessoa fala português, espanhol ou warao — todo mundo entende e consegue participar”, explica Thiago Ribeiro, oficial do projeto.
Espaço de respiro no cotidiano
Nos abrigos, a rotina muitas vezes é marcada pela espera, por ansiedades e incertezas. Nesse contexto, o esporte também se torna um espaço de “respiro”: “A gente vê que o esporte ajuda na saúde mental. É um momento em que a pessoa consegue se distrair, se expressar e estar presente ali”, afirma.
A proposta do Klabu Clubhouse parte do envolvimento direto da comunidade. Desde o início, as atividades foram construídas com a participação dos próprios moradores dos abrigos, que atuam na organização, mobilização e condução das ações. Esse modelo fortalece o protagonismo e contribui para que o espaço seja reconhecido como parte da vida cotidiana da comunidade. Foi nesse ambiente que a trajetória de Sr. Hermes Zapata ganhou novos contornos.

Trajetória construída no esporte
Migrante venezuelano e indígena warao, ele chegou ao Brasil trazendo uma longa relação com o esporte. Ao longo da vida, foi atleta, treinador e liderança comunitária, acumulando experiências em diferentes modalidades. “Fui jogador de futebol, voleibol… também trabalhei com canoagem. Tenho muita experiência no esporte”, conta.
Em Boa Vista, encontrou no Klabu um espaço para continuar exercendo esse vínculo. A narração dos jogos surgiu de forma espontânea, a partir da própria dinâmica das partidas. “Comecei porque não tinha ninguém narrando. Peguei o microfone e fui”, relembra.
Comunicação, confiança e participação
No início, o processo foi marcado por insegurança. “No começo dava nervoso, não saía bem… às vezes eu me equivocava”, conta. Com a prática, a experiência foi se transformando em aprendizado. “Depois fui me acostumando. Já perdi o nervoso, não tenho mais medo de falar.”
Com o tempo, a narração deixou de ser apenas uma atividade e passou a ser um espaço de expressão e relação com a comunidade. “Quando tem narrador, os jogadores se animam mais”, diz. A presença no microfone também ampliou sua forma de se relacionar com os outros. “A gente tem que saber falar, tratar bem, ter respeito. Se não respeita, ninguém respeita a gente.”

Além de narrar, Hermes passou a orientar outros participantes, organizar jogos e contribuir para o funcionamento das atividades. Aos poucos, sua atuação foi ganhando um papel mais amplo dentro do projeto.
“O senhor Hermes é a alma do projeto. Ele mobiliza, orienta, aproxima as pessoas. É uma referência para a comunidade”, destaca Thiago.
Cidades inclusivas e resilientes
As atividades esportivas do Klabu ultrapassaram os limites dos abrigos e passaram a ocupar espaços públicos da cidade, como quadras, parques e eventos esportivos. Essa presença amplia o acesso à cidade e contribui para reduzir barreiras entre migrantes, refugiados e população local. A partir disso, passam a circular, conviver e se reconhecer como parte do território.
“A ideia é que essas pessoas ocupem a cidade como qualquer outra, não só para acessar serviços, mas para viver a cidade”, explica Thiago.
Em 2025, o projeto alcançou mais de 3 mil participantes e mais de 58 mil atendimentos em Boa Vista. As atividades também avançaram para além dos abrigos, com a participação em corridas de rua em parceria com a Bemol e a Operação Acolhida.
O impacto se reflete no aumento da participação de mulheres, no engajamento da comunidade e na convivência entre diferentes nacionalidades e etnias, incluindo povos indígenas como Warao e Jivi.

Projetos de vida em construção
Fora das atividades, o esporte segue presente no cotidiano. Hermes divide o tempo entre o projeto e a vida familiar, ajudando a esposa no trabalho com artesanato e mantendo vínculos próximos com filhos e netos — uma presença que também se reflete na forma como se posiciona na comunidade.
No abrigo, esse papel se traduz em ação: ele narra jogos, incentiva a participação de outros moradores e contribui para fortalecer os vínculos coletivos. “Para ser líder, tem que ter responsabilidade… não é só falar, tem que fazer.”
Ao ser perguntado sobre os planos para o futuro, Hermes não hesita: “Eu quero aprender mais, fazer um curso de rádio.” A narração passou a fazer parte do seu percurso de desenvolvimento. “Uno quiere aprender más, tener más experiencia, mejorar.”
Cidades Inclusivas e Resilientes
No eixo de Cidades Inclusivas e Resilientes, a AVSI Brasil fortaleceu políticas públicas, redes locais e acesso a direitos em contextos urbanos e migratórios, alcançando milhares de beneficiários por meio de ações voltadas à primeira infância, inclusão social, planejamento territorial e fortalecimento comunitário. A atuação priorizou construção de capacidades locais, articulação institucional e desenvolvimento de respostas sustentáveis para populações vulneráveis.