No Vale do Salitre – BA, onde a produção depende do clima, da água e de decisões tomadas a cada ciclo, Airi Gonçalves construiu sua trajetória no campo a partir do que aprendeu com a família. A terra veio de gerações, do avô e do bisavô, junto com o jeito de plantar e conduzir a roça.
Por muito tempo, o trabalho seguiu um ritmo de subsistência. A produção era diversificada, em pequena escala, e as decisões partiam da experiência acumulada ao longo dos anos. “A gente plantava de tudo um pouco… era tudo na cabeça”, resume.
Mudança na produção
Esse modelo mantinha a roça ativa, mas com pouca previsibilidade. Faltava controle sobre custos, produção e resultado.
A mudança começa quando Airi passa a participar do projeto Aceleração da Agricultura Familiar do Salitre. A partir do diagnóstico inicial, o trabalho que já existia passa a ser acompanhado de forma mais estruturada, com análise de solo e água, assistência técnica e orientação para registro das atividades.
“Antes a gente comprava e aplicava sem saber direito. Hoje a gente acompanha, vê os dias certos, as quantidades e anota tudo”, explica.
Para Marcele Andrade, gerente do projeto na AVSI Brasil, esse é um dos primeiros deslocamentos que o acompanhamento promove. “A gente parte do que o agricultor já sabe e constrói junto. Não é mudar tudo, é organizar e dar mais clareza ao que já existe”, afirma.
Organização do trabalho
O impacto aparece no campo a partir da organização do trabalho. Com o acompanhamento técnico, o manejo passa a seguir um planejamento, com definição de prazos, quantidades e registro das atividades realizadas. A produção deixa de depender apenas da experiência e passa a ser conduzida com base em orientações técnicas e acompanhamento contínuo.
Com o apoio da mentoria, entram em cena ferramentas simples, como a caderneta de controle, que permitem acompanhar custos, produção e resultados ao longo do tempo.
“Quando o produtor começa a registrar, ele passa a enxergar a própria produção de outra forma. Consegue identificar o que funciona e o que precisa ajustar”, explica Marcele.

A partir daí, a produção deixa de ser apenas atividade e passa a ser conduzida como negócio.
Do campo ao mercado
Essa mudança abre caminho para um novo passo: a conexão direta com o mercado. A partir do projeto, Airi passa a ter contato com Inácio Pereira, responsável por aproximar produtores de redes de supermercado. “O foco é tirar o atravessador e comprar direto de quem produz”, explica.
Até então, a venda acontecia de forma intermediada. Nesse modelo, o produtor entrega o produto sem controle sobre peso, preço ou margem. “Quando chega no consumidor, já passou por quatro ou cinco pessoas”, relata Airi.
A venda direta exige outro nível de organização. Padronização, controle de peso, documentação e regularidade na entrega passam a fazer parte da rotina.
“Para vender para rede, tem regra. Tem que pesar, padronizar, emitir nota. Não dá para fazer de qualquer jeito”, resume Inácio.
Para Marcele, esse movimento amplia o lugar do agricultor na cadeia produtiva. “Ele deixa de só produzir e passa a entender o mercado, negociar e tomar decisões com mais autonomia”, afirma.
Profissionalização e gestão
Airi responde a esse desafio. Formaliza a produção, abre CNPJ e estrutura a empresa Novo Horizonte. Dentro da propriedade, a organização também muda: o filho Alex passa a assumir as negociações, enquanto ele segue na produção.
O processo envolve aprendizado e adaptação, mas amplia as possibilidades. “Mandando direto para o mercado, já vai com preço certo”, afirma.

Um trabalho que se transforma
A experiência de Airi mostra que a mudança não acontece apenas no que se produz, mas na forma como o trabalho é conduzido. Produzir, registrar, planejar e negociar passam a fazer parte de um mesmo processo.
Esse movimento é sustentado pelo acompanhamento contínuo, que articula assistência técnica, mentoria e conexão com o mercado. “É um processo que acontece no tempo. A gente acompanha, orienta e vai construindo junto com cada família”, explica Marcele.
Ao longo de cerca de um ano e meio, o projeto realizou diagnósticos, visitas técnicas e encontros formativos, apoiando diretamente famílias da agricultura familiar na região.
No território, onde fatores como clima, logística e acesso ainda impõem desafios, esse tipo de acompanhamento faz diferença.
No caso de Airi, a mudança também mobiliza a família e começa a repercutir na comunidade. Outros produtores passam a observar e buscar referências em seu trabalho.
“Hoje, a gente sabe o que está fazendo”, comemora.

Com apoio técnico contínuo, acesso a ferramentas de gestão e conexão com o mercado, agricultores passam a compreender melhor sua própria produção, identificar pontos críticos e tomar decisões com mais clareza.
Ao longo do projeto, 50 famílias da agricultura familiar foram acompanhadas com planos de desenvolvimento, assistências técnicas, mentorias e formações voltadas à gestão e à produção. Esse processo inclui desde o uso de cadernetas de controle até a construção de estratégias de comercialização, fortalecendo a autonomia das famílias no território.
No Salitre, esse movimento já é visível no cotidiano. O trabalho segue marcado pelos desafios do território, mas passa a ser conduzido com mais organização, mais controle e maior capacidade de decisão.
Trabalho e Crescimento Econômico
No eixo de Trabalho e Crescimento Econômico, a AVSI Brasil beneficiou diretamente milhares de pessoas em 2025 por meio de qualificação profissional, fortalecimento da agricultura familiar, empreendedorismo, apoio a organizações da sociedade civil e inserção produtiva. As iniciativas promoveram autonomia econômica, organização produtiva e acesso a mercado, especialmente para jovens, agricultores familiares, mulheres e organizações sociais em territórios vulneráveis. O eixo se destacou por fortalecer capacidades econômicas sustentáveis articuladas a desenvolvimento humano e inclusão social.