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Josenilda Bispo: uma trajetória construída entre o campo e a educação

Da infância na zona rural de Catu ao trabalho com crianças no Programa Ciranda Viva, professora construiu uma trajetória marcada pela perseverança, pelo afeto e pela crença no poder da educação

Na comunidade de Pedras, na zona rural de Catu, foi onde Josenilda Bispo nasceu, cresceu e aprendeu, ainda criança, o valor da família, do trabalho e da perseverança. Filha de agricultores e a terceira de cinco irmãos, viveu a infância entre a escola e a roça, ajudando os pais no cultivo de mandioca, milho e amendoim, que garantiam o sustento da família.

          Aos nove anos, Josenilda já acompanhava os pais nas atividades da roça. Depois da escola, o caminho era direto para a plantação de mandioca. Na casa de farinha, a família transformava a mandioca em tapioca, farinha, beiju e fécula. Apesar de ter tido poucos momentos para simplesmente brincar e ser criança, ela guarda essas lembranças como parte importante de sua história.

“Na minha memória, aquele era um momento de estar com a minha família e o que me motivava era saber que dali, daquela plantação, ia sair o sustento da nossa casa”, conta.

          Mas, entre uma jornada e outra de trabalho, havia um lugar que despertava um sentimento diferente em Josenilda: a escola. Desde pequena, admirava seus professores e enxergava naquela profissão algo especial. Foi ali que nasceu um sonho que a acompanharia por toda a vida.

“Eu sempre olhava para os meus professores com uma certa admiração. Achava uma profissão tão linda e, desde então, eu já sonhava em ser professora. Eu pensava: ‘quando eu crescer, serei professora!’”     

Um sonho que atravessou gerações

          A vontade de ensinar permaneceu mesmo quando Josenilda chegou ao ensino médio. Estudando no centro de Catu, encontrou no magistério o caminho para realizar o sonho de infância. Ao contar à mãe que havia se matriculado no curso, recebeu dela uma reação de alegria e orgulho.

          A relação de Josenilda com a educação, iria ganhar um significado ainda mais profundo. Sua mãe não sabia ler nem escrever, e foi a própria filha quem deu os primeiros passos.

          A primeira experiência de Josenilda em uma sala de aula aconteceu justamente na Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde sua mãe foi uma de suas alunas. Durante 15 anos, ela se dedicou ao ensino de adultos e descobriu, na prática, a dimensão transformadora da profissão que havia escolhido ainda criança.

“Entendi na prática que o professor tem o poder de mudar a vida das pessoas.”

          Ao longo desse período, Josenilda acompanhou alunos de diferentes idades, chegando a ensinar pessoas de até 70 anos. Para ela, cada conquista tinha um significado especial: ver pessoas que antes dependiam de outras para ler, conseguirem alcançar a autonomia era uma das maiores recompensas da profissão.

“Ver o avanço dessas pessoas que antes não conseguiam nem assinar o próprio nome, tendo a felicidade de conseguir ler um documento, para mim, como professora, não existe motivação maior.”   

um novo encontro com a educação

          Depois de muitos anos dedicados à EJA, Josenilda abraçou uma nova oportunidade: ensinar crianças e adolescentes na escola ‘João de Deus’ na comunidade rural de Veadinho (Catu-BA).

          Foi nesse momento que percebeu que havia encontrado uma nova forma de exercer sua vocação. O trabalho com as crianças despertou nela um sentimento diferente e abriu caminho para uma nova etapa de sua trajetória.

“Trabalhar com crianças, para mim, foi como um despertar. Foi o lugar em que me encontrei.”

          Foi assim que, há sete anos, Josenilda chegou ao Programa Ciranda Viva. Desde então, sua história pessoal e profissional passou a caminhar lado a lado com a trajetória de muitas crianças e famílias das comunidades onde atua.

De “tia Nilda” para “pró Nilda”

          Trabalhar com crianças que conhece desde bebês também traz desafios particulares. Muitas delas vivem na mesma comunidade que Josenilda e cresceram chamando-a de “tia Nilda”. Na sala de aula, porém, ela também é a “pró Nilda”.

          Essa proximidade faz com que o trabalho ultrapasse os limites da sala de aula. O vínculo construído ao longo dos anos é parte importante da relação de Josenilda com as crianças — e, para ela, conhecer suas histórias e acompanhar seu crescimento só aumenta o carinho pela profissão.

“Às vezes é desafiador trabalhar com crianças que conheço desde que nasceram. Muitas moram na mesma comunidade que eu e, para elas, é difícil desassociar a ‘tia Nilda’ da ‘pró Nilda’. Mas isso me motiva ainda mais, porque o amor por eles e pela profissão só aumenta.”

          Hoje, ao olhar para sua trajetória, ela encontra na própria história motivos para continuar acreditando na educação. A menina que dividia o tempo entre a escola e a roça, cresceu, tornou-se professora e passou a incentivar outras crianças a enxergarem possibilidades para além da realidade que conhecem.

Para ela, ensinar também é mostrar que cada pessoa pode construir seu próprio caminho.

“Para mim, a missão de um professor é levar para os seus alunos que eles podem ser roteiristas da própria história, que não precisam ter o mesmo destino que sua família e que podem voar muito alto.”

A trajetória de Josenilda também se conecta ao propósito do Programa Ciranda Viva e à atuação da AVSI Brasil nos territórios: criar condições para que crianças, adolescentes e suas famílias possam ampliar suas possibilidades de desenvolvimento a partir das próprias realidades. Em comunidades rurais, esse trabalho parte da escuta e da valorização dos vínculos locais para construir, junto às pessoas, caminhos que fortaleçam a educação, a convivência e o protagonismo. É nesse encontro entre território, relações e oportunidades que histórias como a de Josenilda ganham novos significados e ajudam a mostrar que o desenvolvimento também acontece quando as pessoas encontram espaço para construir seus próprios caminhos.