A alimentação adequada nos primeiros anos de vida não impacta apenas a saúde física de uma criança. Ela influencia diretamente o desenvolvimento cognitivo, a capacidade de aprendizagem, a construção de vínculos e as possibilidades que essa criança terá ao longo da vida. Quando esse cuidado se soma ao acompanhamento contínuo e à orientação às famílias, deixa de ser uma resposta imediata e passa a sustentar trajetórias de desenvolvimento.
No Subúrbio de Salvador (BA), em um território onde o acesso à alimentação adequada ainda é atravessado por desigualdades, esse cuidado faz diferença concreta no cotidiano de muitas famílias. É nesse contexto que cresce Cleidson Kauan.
Hoje, aos 17 anos, ele carrega uma história que começou cedo, atravessada por acompanhamento, vínculo e oportunidades. “Eu faço parte do COF desde os meus dois anos de idade. Praticamente cresci aqui dentro”, conta.
Início do acompanhamento
Cleidson chegou ao Centro de Orientação da Família (COF) ainda pequeno, após a escola identificar a necessidade de acompanhamento. O encaminhamento não envolvia apenas a alimentação, mas também o cuidado com o desenvolvimento integral.
“Na época, ele apresentava um quadro de desnutrição leve. A diretora teve o cuidado de encaminhar para o acompanhamento nutricional e psicológico, para prevenir qualquer dificuldade no aprendizado”, conta a mãe, Tamires Rodrigues.
O que poderia ter sido um atendimento pontual se transformou em um percurso contínuo. Ao longo dos anos, Cleidson foi acompanhado pela equipe do COF em um processo que integrou saúde, educação e apoio à família, criando as bases para o desenvolvimento que viria depois. “Eu vinha, desenhava, pintava, conversava… e também passava pela nutricionista. Eu contava o que eu comia e aprendia o que precisava mudar”, relembra Cleidson.
Um trabalho que começa na relação
O COF nasce da relação construída com a comunidade de Novos Alagados e atua diretamente com crianças, adolescentes e suas famílias em situação de vulnerabilidade social, desenvolvendo ações voltadas à educação nutricional, desenvolvimento infantil e fortalecimento familiar.
“Não é só a questão nutricional. Existe um contexto afetivo, social e familiar que precisa ser considerado. Por isso o acompanhamento é contínuo e integrado”, explica Débora Oliveira, gerente do projeto.
Esse processo reflete a lógica do projeto Educação Nutricional e Desenvolvimento Integral, que atua com crianças e adolescentes de 0 a 18 anos, promovendo a recuperação nutricional, o desenvolvimento cognitivo, emocional e social.
Desenvolvimento ao longo do tempo
A história de Cleidson ajuda a traduzir o que esse trabalho significa na prática. O que começou como um acompanhamento para reverter um quadro de desnutrição se transforma, ao longo dos anos, em um percurso de desenvolvimento. O cuidado não se encerra na recuperação: ele continua sustentando autonomia, escolhas e novas perspectivas de futuro.
“Através do COF, conseguimos vencer a desnutrição. E depois vieram outras oportunidades que mudaram a nossa vida”, afirma a mãe.
Essa continuidade é um dos diferenciais do trabalho. Hoje, o projeto acompanha centenas de crianças e adolescentes, com atendimentos nutricionais, psicológicos e psicopedagógicos, além de atividades educativas com as famílias. Em um ano, foram realizadas centenas de avaliações nutricionais e mais de mil atendimentos na área psicossocial. Os números ajudam a dimensionar o alcance do trabalho, mas é nas trajetórias individuais que o impacto se torna visível.
“A gente vê crianças que chegam sem segurança, fechadas, e aos poucos vão se abrindo, criando vínculos e fazendo escolhas. É um desenvolvimento que acontece no tempo de cada um”, afirma Débora.
Impacto nas trajetórias

Na história de Cleidson, esse movimento se torna visível. O acompanhamento que começou na infância não se encerra na recuperação nutricional — ele evolui ao longo do tempo, acompanhando seu desenvolvimento e abrindo espaço para novas experiências e decisões.
Esse processo está diretamente ligado à forma como o projeto trabalha a alimentação dentro de uma perspectiva mais ampla de desenvolvimento.
“A alimentação adequada impacta não só o crescimento físico, mas também o aprendizado, a concentração e até a forma como a criança se relaciona com o mundo”, explica Elaine Matos, nutricionista do projeto. “Quando a gente trabalha isso junto com a família, o resultado aparece em várias áreas da vida.”
Na prática, essa mudança também é percebida por quem vivencia o percurso.
“A gente achava que não era capaz de fazer muita coisa. E aí, quando começa a participar, vê que consegue”, conta Cleidson.
Percurso formativo e inserção profissional
Aos 14 anos, ele passa a acessar as formações oferecidas pelo COF. O primeiro curso foi de informática. Depois vieram outras experiências até chegar ao Conexão Jovem Mercado, onde teve o primeiro contato com situações reais do mundo do trabalho.
“Esse curso foi o pontapé inicial. A gente criou uma miniempresa, organizou tudo, vendeu produto… e eu fui o presidente. Foi ali que eu vi que era capaz.”
Além de ampliar os conhecimentos técnicos, o percurso formativo amplia também a forma como ele se enxerga. Com mais segurança e repertório, Cleidson dá o próximo passo. Após o curso, participa de um processo seletivo e é contratado como jovem aprendiz.
“Foi muita responsabilidade, mas também muito aprendizado. A gente aprende como se portar e como trabalhar em equipe. Hoje já estou no meu segundo contrato.”
Hoje, como jovem aprendiz na área administrativa, ele já soma mais de dois anos de experiência profissional. Para além da inserção no mercado de trabalho, a mudança também se reflete dentro de casa.
“Com o meu trabalho, consegui comprar meu celular e ajudar na nossa casa. Isso, para mim, foi muito importante.”

Dimensão familiar do acompanhamento
A trajetória de Cleidson também evidencia outro aspecto do trabalho do COF: seu caráter geracional. A relação com o projeto não começa com ele, mas com a mãe, que já havia sido acompanhada no mesmo espaço antes do início do percurso do filho.
Esse vínculo, construído ao longo do tempo, atravessa a família e sustenta a permanência no projeto. O que começa como cuidado individual se amplia e se consolida como referência para diferentes gerações.
“Através do COF, conseguimos vencer a desnutrição. E depois vieram outras oportunidades que mudaram a nossa vida”, afirma Tamires.
“A gente atende mães, filhos e depois os filhos voltam com seus próprios filhos. Isso mostra a confiança construída ao longo dos anos”, destaca Débora.
Nesse percurso, o desenvolvimento se constrói ao longo do tempo, a partir da relação, da escuta e da construção conjunta com a família. Hoje, aos 17 anos, Cleidson já projeta novos caminhos.
“Quero continuar estudando, crescer profissionalmente e conquistar meus objetivos.” Agora, com novos horizontes, ele já define o próximo objetivo: “Eu pretendo futuramente ser delegado federal.”
Água e Segurança Alimentar
Em 2025, o eixo de Água e Segurança Alimentar alcançou diretamente cerca de 2 mil beneficiários, com impacto ampliado para milhares de famílias e comunidades rurais por meio de tecnologias sociais de acesso à água, fortalecimento da agricultura familiar, saneamento, segurança alimentar e educação ambiental. As ações envolveram implantação de sistemas como Aqualuz e Bioágua, capacitações técnicas, geração de renda e fortalecimento produtivo, especialmente em territórios rurais e semiáridos, contribuindo para autonomia, resiliência climática e sustentabilidade local.