A construção de ambientes que favoreçam o desenvolvimento das pessoas orientou o primeiro dia do XVI Encontro Anual da AVSI Brasil, em Salvador – BA. Colaboradores, parceiros e convidados se reuniram para discutir como essa perspectiva se traduz nas estratégias da organização para o público brasileiro, também na acolhida e integração de refugiados e migrantes e no trabalho com os parceiros.

Com o tema “Construtores de lugares: ambientes onde seja promovida a verdadeira natureza da pessoa”, o encontro propõe analisar o percurso institucional e compartilhar experiências que contribuam para os próximos passos da organização. A abertura contou com Fabrizio Pellicelli, diretor-presidente da AVSI Brasil, e Nathália Peixoto Almeida Belo da Silva – coordenadora do Escritório de Cooperação Internacional da Prefeitura de Salvador.
“Nós, da AVSI Brasil, somos construtores de lugares: projetos e obras sociais, mas também ambientes onde colaboradores e pessoas possam se encontrar e se desenvolver. Para isso, é fundamental ter uma missão sólida e uma identidade clara, que nos permitam enfrentar os desafios de uma realidade que muda”, comentou o Pellicelli.

Desenvolvimento que parte da pessoa
O diálogo com Alexandre Ferraro, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, abordou as competências, responsabilidades e recursos necessários para construir ambientes que promovam o desenvolvimento da pessoa. A mediação foi de Fabrizio Pellicelli.
A reflexão se conecta ao método da AVSI Brasil, que reconhece cada pessoa para além das circunstâncias em que vive. Esse método valoriza as iniciativas locais, o diálogo e a confiança, a participação de diferentes atores e o aprendizado a partir da experiência.
Na organização, essa perspectiva também orienta a formação técnica e humana dos colaboradores. O desenvolvimento das equipes integra as condições necessárias para acompanhar pessoas e comunidades e responder aos desafios dos projetos.
“A missão de vocês de estar próximos das comunidades, da população local, de engajar e de ouvir as pessoas é muito importante. É um diferencial que agrega muito ao projeto. E, quanto mais clareza temos sobre quem somos, menos medo temos das mudanças. A novidade da AVSI Brasil está justamente na sua origem e na sua identidade, e não tanto nos processos. É isso que nos dá liberdade para nos reinventarmos sempre”, ressaltou Alexandre Ferraro.

Diretrizes que conectam missão e prática
A atualização das linhas estratégicas da Fundação AVSI foi tema da sessão com Giampaolo Silvestri, secretário-geral da Fundação, e mediação de Fabrizio Pellicelli.
A AVSI Brasil atua em sintonia com os princípios e as estratégias da Fundação. Sua apresentação institucional e o Balanço Social registram oito diretrizes de referência: a pessoa no centro do desenvolvimento; o desenvolvimento como autoconsciência; a conexão entre atuação local e contexto internacional; a governança e o fortalecimento institucional; a liderança e a valorização das equipes; a atuação territorial integrada; o protagonismo e o fortalecimento local; e as parcerias multissetoriais.

Essas orientações relacionam o desenvolvimento ao reconhecimento do próprio valor e da capacidade de agir sobre a realidade. Nos projetos, essa perspectiva se expressa no acompanhamento, na educação, na construção de vínculos e na participação das pessoas nas iniciativas.
A conexão com a Fundação AVSI favorece a troca de experiências e a construção de respostas adequadas aos contextos locais, com uma base metodológica compartilhada.

Sustentabilidade para dar continuidade ao trabalho
Fabrizio Pellicelli e Jacopo Sabatiello, diretor-vice-presidente da AVSI Brasil, conduziram a sessão sobre o contexto de atuação, o percurso de 2026 e a sustentabilidade institucional.
A sustentabilidade institucional se relaciona, assim, à capacidade de reunir recursos, desenvolver equipes e fortalecer relações com comunidades, empresas, poder público, organizações da sociedade civil e organismos internacionais.
“A sustentabilidade institucional não se resume à arrecadação de recursos financeiros; ela diz respeito à nossa capacidade de criar vínculos duradouros, gerir pessoas com eficiência e fortalecer parcerias estratégicas com o setor público, empresas e a sociedade civil para garantir a continuidade e o impacto dos nossos projetos no longo prazo” pontuou Jacopo Sabatiello.
Acolhida, integração e contribuição para o desenvolvimento
No período da tarde, a contribuição de refugiados e migrantes para o desenvolvimento do Brasil reuniu perspectivas do poder público, da cooperação internacional, da filantropia e do setor empresarial, em mesa mediada por Fabrizio Pellicelli.
Participaram Regis Spíndola, da Secretaria Nacional de Assistência Social; o general José Luís dos Santos, da Operação Acolhida; Paulo Sérgio de Almeida, do ACNUR Brasil; Colin Murphy, da AVSI USA; Alejandro Okret, da Shapiro Foundation; e Elisandra Roldo, da Aurora Coop, com participação virtual. O vídeo “Acolhidos por meio do Trabalho” integrou a sessão.

A programação conectou a resposta humanitária à realocação voluntária, à integração socioeconômica e ao acesso ao trabalho. São dimensões presentes na atuação da AVSI Brasil, que combina acolhimento, proteção, apoio à documentação e articulação de oportunidades de trabalho formal.
O acompanhamento parte do reconhecimento das capacidades e dos projetos de vida de cada pessoa, com atenção às condições para exercer direitos, construir vínculos e retomar a autonomia.
Régis Spíndola destaca o ponto de partida dessa trajetória “O acolhimento e a inserção no Cadastro Único são a porta de entrada para garantir direitos básicos no SUAS, mas o objetivo final é sempre a autonomia das famílias.”
Essa transição da emergência para a integração ganha força no deslocamento pelo país, como pontua o General José Luís dos Santos : “A interiorização é a grande ferramenta dessa transformação socioeconômica. Ao conectar quem chega com vagas formais de trabalho e apoio nos municípios de destino, levamos dignidade às pessoas e suprimos demandas de mão de obra pelo Brasil.”
Para que essa ponte se consolide no mercado de trabalho, Paulo Sérgio de Almeida (ACNUR Brasil) reforça o papel do setor produtivo:”O Brasil possui um marco legal exemplar, mas para superar gargalos como idioma e moradia, a parceria com o setor privado no trabalho formal é o que destrava o real potencial produtivo e a contribuição desses migrantes.”
Empresas e comunidades na construção de oportunidades
A última mesa do dia abordou o modelo de valor compartilhado da Fiat em Betim, com referência aos 50 anos de história da empresa no município e aos 20 anos do Programa Árvore da Vida.
Com mediação de Jacopo Sabatiello, a sessão contou com Fernando Elias, coordenador de Filantropia da Stellantis, e Deborah Amaral, gerente-geral da AVSI Brasil em Minas Gerais. As experiências dos programas Árvore da Vida e Rota do Saber integraram o diálogo sobre responsabilidade social corporativa e desenvolvimento das pessoas e das comunidades.

“O investimento social não deve ser visto como mero assistencialismo, mas como uma estratégia de valor compartilhado. Quando investimos no desenvolvimento da comunidade do entorno da fábrica, geramos impacto social real, fortalecemos a autonomia das pessoas e garantimos a nossa licença social para operar ao longo das décadas,” comenta Fernando Elias, Coordenador de Filantropia da Stellantis.
A pauta se relaciona à atuação socioeducacional da AVSI Brasil, que articula educação, cultura, esporte e participação das famílias. Também expressa seu papel na mediação entre empresas e comunidades, com atenção às capacidades locais e à construção compartilhada das iniciativas.
Os próximos dias do encontro segue com a visita ao Projeto Acelen Acender, em Candeias – BA, e debates sobre resposta a emergências, fundos incentivados e atuação da AVSI na América Latina. A proposta é reunir experiências e aprendizados que contribuam para o planejamento da organização e para a continuidade de seu trabalho com pessoas e comunidades.