Por: Claudio Trindade
Recomeçar a vida em outro país requer coragem e esperança. Foi com este sentimento que, há nove meses, a família de Patricia de Jesus chegou ao Brasil. Acompanhada do esposo, Angel, e dos quatro filhos, a família percorreu a Venezuela até a região de fronteira com o Brasil, entre Santa Elena de Uiarén e Pacaraima, no estado de Roraima. Trazendo consigo poucos recursos, a jornada se deu pela busca de novas oportunidades para ela e, principalmente, um melhor futuro para os filhos.
Com poucos dias no Brasil, Patricia recebeu o auxílio da Operação Acolhida, realizada pelo Governo Federal em resposta ao fluxo migratório venezuelano no país. Ainda em Roraima, foi onde a jovem venezuelana conheceu a AVSI Brasil.

“Ouvimos falar sobre o [projeto] Acolhidos ainda nos abrigos na região de Pacaraima, onde também nos deram as informações necessárias para a documentação e outros serviços. Desde lá até Boa Vista ficamos ainda mais interessados em participar das atividades do projeto”, comenta Patricia.
Voltado para a integração socioeconômica de refugiados e migrantes venezuelanos, a AVSI Brasil implementa o projeto Acolhidos Por Meio Do Trabalho. As ações do projeto apoiam famílias acolhidas, em abrigos gerenciados pela associação, que participam do processo de interiorização – um deslocamento voluntário para outros Estados realizado pelo Operação Acolhida.
Dentro das modalidades de interiorização é ofertada o deslocamento institucional, que parte dos abrigos de Boa Vista com destino ao abrigo temporário no centro de acolhida Casa Bom Samaritano (CBS), em Brasília (DF). Foi através da interiorização para a CBS que Patricia chegou à capital federal, com a motivação de conquistar um mundo cheio de oportunidades.
“Quando chegamos aqui, ficamos um pouco assustados, porque nos demos conta que já estaríamos mais ao centro do país e distante da região de fronteira, mas por outro lado foi uma emoção muito grande por todo o apoio que nos estão dando, seja para meus filhos ou para meu marido”, relata.
Em Brasília, Patricia diz enfrentar uma realidade diferente daquela que vivia na Venezuela, seja pela alimentação e a cultura local, mas isso despertou ainda mais o interesse dela em conhecer sobre o país.
“Digo que ainda estou me adaptando ao país. Apesar das diferenças, fico muito grata por ter a oportunidade de vivenciar isso. Pensamos sempre em seguir em frente e alcançar nossos objetivos. Deus nos abriu esta porta e, desde então, nunca nos faltou nada. O que o nosso país não pode apoiar a gente, sinto que o Brasil apoia”, confessa.
Com o apoio do projeto Acolhidos, a família de Patricia conseguiu oportunidade de educação para os filhos junto a rede pública de ensino e uma vaga de emprego formal para o esposo, sendo um passo na jornada de autonomia do grupo familiar. Ela reforça o sentimento de gratidão pelas chances de retomar a vida no Brasil.
“As dificuldades que encontrei em outros lugares foram superadas aqui, com o apoio da equipe do projeto Acolhidos. Nos deram um lar para compartilhar com outras pessoas, de diferentes abrigos, sempre com muito amor e carinho. Me sinto preparada, porque eles nos deram um grande apoio e agora somos nós que temos que seguir em frente”, confessa Patricia.
SOBRE A CASA BOM SAMARITANO
Inaugurado em fevereiro de 2021, o centro de acolhida faz parte do projeto Acolhidos Por Meio Do Trabalho, implementado pela AVSI Brasil, em parceria com o Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH)/Irmãs Scalabrinianas, da Fundação AVSI e da AVSI-USA, e conta com o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que cedeu o espaço em comodato.
“Realizamos o acolhimento das famílias venezuelanas por até três meses e, apesar de parecer um prazo curto, enxergamos um grande potencial em todas essas pessoas. Dentro desse prazo, todos recebem atendimento, orientações e conquistam autonomia financeira e integração social. Pelo menos uma pessoa do núcleo familiar que passa pela CBS sai daqui com a carteira de trabalho assinada, essa é uma oportunidade de um recomeço com dignidade no Brasil”, enfatiza Graziella Guimarães, coordenadora da CBS.
Em conjunto com a Operação Acolhida, a Casa Bom Samaritano recebe grupos de famílias venezuelanas visando o desenvolvimento humano integral. O projeto promove oficinas de formação, atenção integral às crianças, capacitação para o trabalho, acompanhamento em casos de atenção à saúde, acolhimento psicológico e orientação jurídica como meio para a integração socioeconômica de refugiados e migrantes na região.