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Reconstrução em contextos de emergência

A experiência em Canoas - RS mostra que a reconstrução após as enchentes de 2024 se construiu na relação com as pessoas, no acesso a oportunidades e no fortalecimento da comunidade, como revela a trajetória de Marta.

Perder tudo não é o fim da história. Em contextos de emergência, o que define o caminho seguinte é como e com quem essa reconstrução acontece.

As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 provocaram a destruição de casas, infraestrutura e meios de subsistência, agravando a vulnerabilidade de diversas comunidades. Em Canoas – RS, no bairro Mathias Velho, uma das regiões mais impactadas, o projeto Apoio à recuperação das comunidades afetadas pelas enchentes em Canoas foi estruturado para responder a esse cenário, articulando assistência direta, fortalecimento comunitário e ações voltadas à resiliência local.

Uma mudança em curso

É nesse contexto que se insere a trajetória de Marta, moradora da comunidade há mais de 40 anos, costureira e liderança local. Antes da enchente, ela vivia um momento de reconstrução pessoal. Depois de anos atuando em outras áreas, decidiu mudar de vida e investir na costura. Durante a pandemia, iniciou um curso de corte e modelagem e passou a estruturar, aos poucos, o próprio ateliê. “Eu resolvi dar uma guinada na vida”, conta.

Para isso, conciliou diferentes trabalhos e investiu gradualmente na compra de equipamentos. “Eu trabalhava fora para investir no ateliê. As máquinas são caras, então fui comprando uma por uma, até ter praticamente tudo o que precisava”, relembra. O espaço começava a se consolidar, com equipamentos montados e uma nova perspectiva de autonomia e geração de renda. Mas o processo foi interrompido. “Quando conseguimos a última máquina que faltava, caiu tudo por água abaixo durante a calamidade”, diz.

Ruptura


A enchente levou o ateliê, os materiais e aquilo que não se recompõe com facilidade. “Perdi tudo do ateliê… e todas as minhas lembranças. Tudo o que eu construí durante a minha vida inteira.” Nos dias que se seguiram, a perda não veio de forma imediata. Marta seguiu em movimento, apoiando outras pessoas da comunidade. “Eu não senti a calamidade. Até janeiro”, lembra. Como liderança local, passou a ajudar moradores no acesso a informações e serviços, especialmente pessoas idosas com dificuldade de acesso digital. “Saía de casa às seis da manhã e voltava à noite, ajudando as pessoas”, conta.

Reconstrução que vai além do material


Foi apenas semanas depois, ao interromper a rotina, que a dimensão da perda se tornou evidente. “Quando eu parei e fiquei em casa, comecei a sentir falta das coisas que eu não tinha. Não tinha nada, praticamente.” É nesse momento que o projeto se aproxima. A iniciativa atuou em diferentes frentes: apoio socioassistencial com doação de móveis e equipamentos, capacitação de microempreendedores, orientação sobre moradia segura e fortalecimento da organização comunitária, incluindo a criação de estruturas locais de resposta a emergências.

Para Marta, o primeiro impacto foi imediato. “Eu não tinha noção do que era sentar numa mesa e tomar um café dentro de casa”, lembra, ao receber os móveis.

Com o tempo, novas etapas se somaram ao processo. Ela participou da formação voltada a microempreendedores e recebeu equipamentos para retomar o trabalho. A capacitação foi construída a partir da realidade dos participantes, considerando diferentes perfis, experiências e níveis de conhecimento.

“A cada dia eu fui adaptando o conteúdo à realidade da turma. Era um grupo muito diverso, e o desafio era fazer com que todos conseguissem se reconhecer naquele processo e aplicar o que estavam aprendendo”, explica Aline Blanc, instrutora do curso.

Além dos conteúdos técnicos, o espaço também favoreceu a troca entre os participantes, fortalecendo vínculos e ampliando referências para a retomada das atividades.

“O reinício está aqui, com essa máquina”, diz Marta. O processo também impactou outras dimensões da sua vida. “Eu me emociono sempre quando falo desse assunto, mas não é pela tristeza de ter perdido tudo. É pela ajuda na minha reconstrução.”

Continuidade


Hoje, Marta segue reorganizando o ateliê e retomando, gradualmente, sua atividade como costureira. O processo ainda é marcado por desafios, mas também por continuidade. “Eu estou vivendo um dia de cada vez. Dias ruins, dias melhores… mas estou indo”, afirma.

Ao mesmo tempo, mantém sua atuação na comunidade, apoiando outras pessoas que ainda enfrentam as consequências da enchente. “A reconstrução não vai ser fácil. Tem gente que ainda não conseguiu se refazer”, diz.

Sua trajetória mostra que, diante de uma emergência, a resposta não se encerra na ajuda imediata. É o acompanhamento ao longo do tempo — construído na relação com as pessoas e com o território — que sustenta esse processo e abre caminho para novos recomeços.]

O projeto Apoio à recuperação das comunidades afetadas pelas enchentes em Canoas foi financiado pelo Center for Disaster Philanthropy (CDP), que atua internacionalmente em contextos de desastres e emergências climáticas. 

Emergências

Em 2025, o eixo de Emergências mobilizou respostas humanitárias e ações de proteção em larga escala, especialmente em contextos migratórios e situações de vulnerabilidade extrema, alcançando milhares de pessoas de forma direta e indireta. A atuação envolveu acolhimento, proteção social, resposta rápida, integração com políticas públicas e fortalecimento de capacidades locais, reafirmando o compromisso da AVSI Brasil com respostas humanitárias enraizadas no território e sustentadas pela continuidade do acompanhamento.