Migrar significa muito mais do que mudar de cidade ou de país. É deixar para trás referências, afetos, costumes e, muitas vezes, recomeçar a vida em um lugar desconhecido.
Na AVSI Brasil, a migração faz parte da história de muitos colaboradores que hoje atuam em projetos sociais e humanitários em diferentes regiões do país. Alguns deixaram suas cidades para acompanhar iniciativas de desenvolvimento. Outros atravessaram fronteiras em busca de segurança, oportunidades e melhores condições de vida para suas famílias.
Neste Dia Mundial do Migrante, reunimos histórias que revelam desafios, conquistas e aprendizados de quem viveu a experiência da migração e, atualmente, contribui para que outras pessoas também encontrem caminhos para reconstruir suas vidas.
“Apoiar pessoas também me tornou protagonista do meu desenvolvimento”
A trajetória de Arnon Pereira, coordenador de projetos em São Paulo, é marcada por diferentes deslocamentos dentro do Brasil, sempre acompanhando iniciativas voltadas ao desenvolvimento humano.
Sua história na AVSI Brasil começou na Bahia, atuando como técnico social no Projeto Alagoinhas Sustentável. Anos depois, seguiu para Roraima para integrar a resposta humanitária voltada aos migrantes venezuelanos. O que começou com a gestão de um abrigo se transformou em uma operação muito maior, que chegou a coordenar, junto com a equipe AVSI, sete abrigos e um posto de triagem na fronteira com a Venezuela.
Posteriormente, retornou à Bahia para apoiar ações humanitárias em municípios do entorno da Refinaria de Mataripe. Mais tarde, participou da implantação de iniciativa voltada à população em situação de rua na cidade de São Paulo. Hoje coordena projetos sociais realizados em parceria com concessionária de energia.
Para Arnon, a motivação para tantas mudanças sempre esteve ligada à missão da organização.
“Me identifico em absoluto com a missão da AVSI Brasil, que é apoiar as pessoas a se tornarem cada vez mais protagonistas do seu desenvolvimento, considerando todas as suas potencialidades”, relata.
Entre os desafios da trajetória, destaca a distância da família e, especialmente, a perda da avó enquanto estava longe de casa.
Ao mesmo tempo, a experiência despertou um interesse acadêmico pelo tema migratório. Durante sua atuação em Roraima, concluiu um mestrado na Universidade Federal de Roraima com pesquisa sobre migrações de pessoas idosas venezuelanas.
“Esses processos são constantes e diários. São muitas oportunidades de aprendizado e transformações“, reforça.
“Sou grata por todas as portas que se abriram”
Natural de Tucupita, no estado venezuelano de Delta Amacuro, Yuleimys María Rico García pertence ao povo indígena Warao e migrou para o Brasil em busca de melhores condições de vida para suas filhas.
Durante três anos viveu no antigo abrigo Janokoida, em Roraima. Nesse período, exerceu papel de liderança dentro da comunidade e enfrentou desafios relacionados à documentação e à adaptação ao novo contexto.
Com o tempo, tornou-se intérprete da língua Warao, apoiando tanto indígenas quanto não indígenas na comunicação e no acesso a serviços. Atualmente atua como assistente de campo.
Ao olhar para sua trajetória, Yuleimys destaca a importância do apoio recebido ao longo do caminho e o orgulho da mulher que se tornou.
“Tenho muito orgulho da mulher guerreira, trabalhadora e batalhadora que me tornei”, comemora.
Hoje, utiliza sua própria experiência para fortalecer processos de acolhida e integração de outras famílias indígenas migrantes.
“Cada lugar por onde passamos nos traz uma nova experiência e um novo aprendizado”, conclui.
“Minha prioridade sempre foi minha filha”
A história de Nelsis Anais Centeno Carvajal, oficial de registro no Abrigo Rondon 1, começou na Venezuela e passou por diferentes cidades antes de chegar ao Brasil.
Formada em Contabilidade Pública, realizou sua primeira tentativa de migração em 2018. Ao chegar a Boa Vista, enfrentou dificuldades para conseguir emprego formal e precisou aceitar trabalhos temporários para seguir em frente.
Mãe solo de uma adolescente, ela explica que a decisão de migrar foi motivada pela necessidade de oferecer melhores oportunidades para a filha.
“Minha prioridade sempre foi atender às necessidades da minha filha e oferecer um futuro melhor”, recorda.
O idioma representou um dos principais desafios da adaptação, assim como episódios de preconceito enfrentados ao longo da jornada.
Hoje, sua experiência pessoal contribui diretamente para o trabalho que realiza junto à população migrante.
“Entender o contexto da migração venezuelana faz com que seja mais leve orientar e acolher de forma humana cada pessoa que chega ao abrigo”, assegura.
“Toda decisão foi tomada pensando no futuro do meu filho”
Professora de formação, Edicmarys Dalis Gamardo Caraballo deixou a cidade de El Tigre, na Venezuela, após o agravamento da crise econômica no país.
Ela conta que a decisão de migrar foi construída em família e teve como principal motivação garantir melhores oportunidades para o filho, que na época tinha apenas cinco anos.
No Brasil, iniciou uma nova trajetória profissional no setor humanitário, passando por diferentes organizações até chegar à AVSI Brasil.
A adaptação ao idioma foi um dos maiores desafios, especialmente porque a comunicação era essencial para conquistar oportunidades de trabalho.
A experiência fortaleceu características que ela considera fundamentais até hoje: “a migração me trouxe mais maturidade, resiliência e determinação.”
Atualmente, utiliza sua própria vivência para acolher pessoas que enfrentam situações semelhantes: “minha experiência me permite compreender de forma mais humana e empática as dificuldades enfrentadas por quem está passando por esse processo.”
“Eu também vivi o deslocamento forçado”
Natural de Maturín, na Venezuela, Carlos Alfredo Francechi Castillo chegou ao Brasil há quase oito anos. Com formação em Comunicação Social, envolvimento com a cultura popular venezuelana e paixão pelas línguas de sinais, precisou deixar seu país devido à crise econômica que afetava sua família.
Entre os desafios enfrentados na chegada ao Brasil, destaca a dificuldade com o idioma e o período em que ficou sem moradia. “No quarto dia após chegar à cidade, fiquei na rua.”
Apesar das dificuldades, encontrou apoio de pessoas que o ajudaram a reconstruir sua trajetória.
Hoje, essa experiência fortalece sua atuação junto aos acolhidos. “Sou venezuelano com orgulho, migrante, morei em abrigo e entendo perfeitamente o que é um deslocamento forçado.”
Para ele, essa identificação cria vínculos importantes com as pessoas que encontra diariamente.
“Recomeçar me tornou mais forte”
Para Rosiris Guerrero, migrar significou deixar para trás a família, a cultura e toda a vida construída na Venezuela.
O processo exigiu adaptação constante, aprendizado de uma nova realidade e persistência diante das dificuldades.
Ao refletir sobre sua trajetória, ela destaca a força construída ao longo do caminho.
“Tenho orgulho da minha coragem e da capacidade de superar dificuldades construindo uma vida melhor para mim e para minha família”, afirma.
Sua mensagem para outras pessoas migrantes é marcada pela esperança: “nunca percam a confiança em si mesmas. A migração nos ensina a ser mais fortes e resilientes.”
“A oportunidade de ajudar outras pessoas transformou minha trajetória”
Em 2019, Dorelys Josefina Torres Salazar decidiu migrar para o Brasil ao lado da família em busca de melhores oportunidades para os filhos.
A chegada coincidiu com um período especialmente difícil: além dos desafios de adaptação e do idioma, o mundo enfrentava a pandemia de Covid-19.
Ela relata que a família passou por dificuldades relacionadas à alimentação, moradia e inserção no mercado de trabalho.
A virada aconteceu quando começou a atuar como voluntária apoiando outras pessoas migrantes em atividades relacionadas à elaboração de currículos, documentação e acesso a direitos.
Hoje, trabalhando na área de distribuição e logística da AVSI Brasil, vê na ação humanitária uma oportunidade de crescimento e de contribuição para outras pessoas.
“Tenho grande satisfação em contribuir para ações que promovem dignidade, inclusão e apoio às populações mais vulneráveis”, garante.
“Migração é uma riqueza”
A história de Alysse Tocatlian começou muito antes de sua mudança definitiva para o Brasil.
Ainda durante a universidade, na França, escolheu o Rio de Janeiro como destino de intercâmbio por seu interesse em compreender experiências de desenvolvimento social e redução das desigualdades.
Ao longo dos anos, construiu vínculos pessoais e profissionais com o país. Aprendeu português, formou amizades, constituiu família e aprofundou sua atuação na área social.
Para ela, um dos maiores aprendizados da migração é compreender quem somos quando estamos longe de nossas referências.
“Quem sou eu sem meus amigos, sem minha família, sem minhas referências? A migração nos faz refletir sobre isso”, recorda.
Alysse também chama atenção para uma experiência comum entre pessoas migrantes: a sensação de ser definida primeiro pela nacionalidade e só depois pela própria história.

Ao olhar para sua trajetória, ela destaca a coragem de recomeçar e a importância dos encontros construídos ao longo do caminho.
“Migração é uma riqueza. É o encontro entre culturas diferentes que aprendem a conviver juntas“, acrescenta.
As histórias de Arnon, Yuleimys, Nelsis, Edicmarys, Carlos, Rosiris, Dorelys e Alysse mostram que não existe uma única experiência migratória.
Existem trajetórias marcadas por escolhas, necessidades, sonhos, crises, oportunidades e recomeços. Em comum, todas revelam a capacidade humana de adaptação, construção de vínculos e busca por novos caminhos.
Na AVSI Brasil, essas experiências também fortalecem o trabalho realizado junto a migrantes, refugiados e comunidades em situação de vulnerabilidade. Afinal, quem já precisou reconstruir a própria história compreende, com profundidade, a importância do acolhimento, da escuta e da construção conjunta de oportunidades.

















