A prevenção da violência não começa na punição, mas na possibilidade de reconstruir caminhos. Em Belo Horizonte – MG, o Projeto Revitalizar atua nesse ponto, criando condições para que pessoas em cumprimento de penas alternativas encontrem novas possibilidades de vida. Integrado ao sistema de justiça, o projeto trabalha com a Prestação de Serviços à Comunidade (PSC) e acordos de não persecução penal, voltados a pessoas envolvidas em infrações sem violência, fortalecendo o caráter educativo e social dessas medidas.
Na prática, os participantes atuam em parques e cemitérios da cidade, em uma rotina que exige presença, compromisso e cumprimento de regras. O que poderia ser apenas uma obrigação judicial passa a ser atravessado por um processo de acompanhamento contínuo, construído na relação.
“O julgamento já aconteceu. O nosso trabalho é garantir que esse processo seja humanizado”, explica Luciene Alves, gerente do projeto.
A dúvida no caminho
Esse contexto faz diferença para quem chega. Victor descreve esse momento como o de alguém que já não acreditava mais em si. “O projeto chega quando nós nem acreditamos mais na gente. É o que faltava para dar aquela força, para enxergar novos horizontes.”
Ao longo do percurso, no entanto, a incerteza é constante. Ele descreve o cotidiano do cumprimento da medida como um processo atravessado por dúvidas diárias: olhar para a folha de ponto e se perguntar se vai conseguir chegar até o fim. “Por inúmeras vezes pensei em desistir. A vida conturbada, tanta coisa acontecendo… e eu me perguntando: será que vale a pena?”
O que sustenta a permanência
O que sustenta a permanência, segundo ele, não é apenas a obrigação, mas a relação construída com a equipe. “Sempre que eu pensava em desistir, recebia uma mensagem, uma palavra de incentivo. ‘Calma, respira, vai dar certo.’ Isso traz força para continuar.”
Essa presença constante transforma a experiência. O que começa como cumprimento de uma medida passa a ser reconhecido como um processo de reconstrução. “Foi um divisor de águas. Um período de muito aprendizado… uma vírgula, não um ponto final.”
Quando a experiência abre caminhos
Para Edgo, o percurso também se constrói a partir da experiência prática e das oportunidades acessadas no projeto. Foi durante um dos cursos que surgiu o interesse pela área ambiental. “Fiz o curso de brigadista florestal e me identifiquei. Fui atrás e consegui a vaga usando o certificado do projeto”, conta.
Hoje, ele segue atuando na área e projeta crescimento na profissão. Mais do que uma inserção no mercado, a experiência também trouxe mudanças na forma de se enxergar. “A gente vai se alinhando novamente como cidadão”, afirma.
Aprendizados no território
O contato com os espaços onde as atividades são realizadas também tem impacto nesse processo. Para ele, estar nos parques amplia a percepção sobre o próprio papel no mundo. “A gente conversa, reflete… começa a pensar mais na vida, no futuro.”
Essa dimensão aparece também na convivência com outros participantes. “Todo mundo está no mesmo processo”, resume Victor, ao falar sobre a rede de apoio que se forma no cotidiano.

Responsabilizar e seguir
A experiência exige disciplina, mas também cria espaço para responsabilização. Ao refletir sobre o próprio percurso, Victor destaca a importância de reconhecer o erro e construir outro caminho: “Errar é humano, mas permanecer no erro é escolha. Quando você reconhece, consegue reparar e seguir.”
Essa mudança de perspectiva se conecta diretamente com o futuro. Victor, que já atuava na área do turismo, retoma esse caminho e projeta continuidade na profissão. Edgo, por sua vez, segue como brigadista florestal e pretende crescer dentro da área. “Quero continuar, crescer dentro disso”, afirma.
A presença que sustenta o percurso
O que fica evidente é um processo de responsabilização e reconstrução que acontece no tempo, entre regras, escolhas e relações. O percurso exige presença, disciplina e compromisso — cumprir horários, assumir responsabilidades e lidar com as próprias decisões. Ao mesmo tempo, é nesse processo que se abrem outras possibilidades.
Essa construção é sustentada por um acompanhamento contínuo, que combina orientação prática, escuta e presença no cotidiano. O foco não está apenas no cumprimento da medida, mas na forma como ela acontece.
Reparação com sentido social
A proposta do projeto parte do princípio de que a pena alternativa não é apenas uma resposta judicial, mas uma oportunidade de reparação com sentido social. Ao atuar na manutenção de parques e espaços públicos, os participantes devolvem à cidade um trabalho, ao mesmo tempo em que constroem novas referências para si.
Essa dimensão também aparece na escala da iniciativa. Em 2025, o projeto acompanhou 485 pessoas em cumprimento de pena, com mais de 37 mil horas de trabalho realizadas em espaços públicos da cidade, contribuindo diretamente para a manutenção e revitalização desses territórios.
Para quem vive esse processo, o impacto é direto. Victor resume essa experiência a partir do próprio percurso: “Eu consegui visualizar o meu erro, consegui reparar e seguir acreditando que é possível mudar”.
Já Edgo aponta para o que permanece depois: “hoje eu levo tudo como aprendizado”, diz, ao falar das mudanças na forma de enxergar a própria vida e o futuro.
No Revitalizar, o cumprimento da pena não se encerra na obrigação. Ele se desdobra em um processo que envolve responsabilização, acompanhamento e a experiência concreta no território. É nesse percurso que outras possibilidades começam a aparecer — não como promessa, mas como caminho construído no dia a dia.
Ao olhar para o próprio percurso, Victor resume: “o seu momento não define a sua história.”
Justiça e Prevenção da Violência
Em 2025, o eixo de Justiça e Prevenção da Violência beneficiou diretamente mais de mil pessoas, incluindo cumpridores de penas alternativas e seus familiares, por meio de programas como Revitalizar e iniciativas ligadas ao sistema de justiça. A atuação articulou responsabilização, formação, reinserção social e manutenção de vínculos familiares, além de gerar impacto positivo em espaços públicos urbanos por meio de milhares de horas de trabalho comunitário. O eixo reforçou práticas de justiça restaurativa e prevenção da reincidência com foco em desenvolvimento humano.