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Acolher, integrar e reconstruir

Da chegada em Roraima à inserção no trabalho, a atuação da AVSI Brasil acompanha famílias migrantes em um percurso contínuo de acolhimento, proteção e autonomia — como mostra a trajetória de Jeisxon Muñoz.

Migrar exige mais do que atravessar fronteiras

Para milhares de famílias venezuelanas, chegar ao Brasil representa apenas o início de uma reconstrução complexa. A travessia envolve deixar para trás redes, trabalho, referências e estabilidade para buscar proteção e novas possibilidades.

Desde 2018, diante do fluxo migratório venezuelano em Roraima, a AVSI Brasil estruturou uma resposta integrada dentro da Operação Acolhida, conectando ordenamento de fronteira, acolhimento humanitário, capacitação e interiorização. O projeto Acolhidos por Meio do Trabalho se consolida nesse contexto como uma estratégia voltada à integração socioeconômica, articulando acolhimento emergencial e reconstrução de trajetórias por meio do trabalho digno. Além da assistência imediata, a proposta busca criar condições que promovam a autonomia integral das pessoas que chegam ao Brasil.

Da chegada à proteção inicial

Foi esse caminho que Jeisxon Muñoz percorreu ao deixar a Venezuela com sua família em busca de futuro. “Chegamos a Pacaraima, e ali recebemos o primeiro apoio. Nos ajudaram com documentação, kits de higiene. Aquilo trouxe esperança”, relembra.

Na fronteira, o acolhimento inicial oferece proteção básica, regularização documental e encaminhamento para abrigos em Boa Vista. É nesse primeiro momento que muitas famílias, ainda marcadas pelo desgaste emocional da migração, começam a reorganizar possibilidades.

Segundo Jéssica Monteiro, coordenadora do projeto, a atuação parte justamente dessa jornada integral: da entrada no país à construção de condições reais para autonomia. O trabalho inclui acolhimento, orientação, qualificação profissional e preparação para interiorização voluntária, sempre respeitando o protagonismo das famílias.

Capacitação para reconstruir a vida

Nos abrigos de Boa Vista, o percurso avança para novas etapas. Por meio do Centro de Capacitação e Educação (CCE), famílias migrantes têm acesso a cursos de português, qualificação profissional, educação financeira, empreendedorismo e preparação para o mercado de trabalho. Jeisxon participou desse processo.

“Estamos aprendendo o idioma, fazendo cursos de finanças, cursos ligados à alimentação, entendendo como funciona o país”, conta.

A preparação também envolve aspectos cotidianos fundamentais: funcionamento das escolas, direitos, deveres e adaptação à nova realidade. “Nos orientaram sobre a educação dos filhos, sobre como funciona a escola, qual é nosso papel como pais”, relata. Esse conjunto de ações amplia competências práticas e fortalece confiança para decisões futuras.

Em um ano, 359 migrantes concluíram cursos de português e qualificação profissional no CCE, incluindo formações em atendimento, operação de caixa, Excel e programas de aprendizagem.

Interiorização como continuidade

Para famílias que optam pela interiorização, o deslocamento para outros estados não representa o fim do processo, mas uma nova etapa. Jeisxon foi encaminhado para Brasília – DF e acolhido na Casa Bom Samaritano, iniciativa estruturada para oferecer proteção temporária e integração planejada.

A Casa, cedida pela CNBB e gerida pela AVSI Brasil junto com o IMDH (Instituto Migrações e Direitos Humanos), opera com uma metodologia específica de co-gestão e acompanhamento durante 90 dias. Nesse período, as famílias recebem moradia, alimentação, orientação psicossocial, inserção escolar para crianças, preparação para o mercado de trabalho e participação ativa na gestão cotidiana da casa.

A proposta não é apenas oferecer abrigo, mas criar condições para autonomia.

“A Casa acolhe, protege, promove e integra. Nosso objetivo é que essas famílias retomem suas vidas com estabilidade emocional e financeira”, explica Graziella Guimarães, coordenadora da Casa Bom Samaritano.

Esse processo se estrutura sobre escuta individualizada, compreensão de vulnerabilidades e construção de caminhos personalizados.

Trabalho como eixo de dignidade

Na trajetória de Jeisxon, essa preparação se concretiza com a inserção no mercado formal. Com apoio da equipe, ele conseguiu trabalho como repositor em um atacadista em Brasília, atuando no turno noturno, das 21h às 5h.

“Estou trabalhando como repositor. Ainda estou aprendendo o idioma, mas eles têm paciência e vão me explicando devagar”, conta. O emprego representa estabilidade financeira, reorganização familiar e inserção social.

Dentro da metodologia do projeto, o trabalho não aparece apenas como renda, mas como elemento central para reconstrução da dignidade e da autonomia das famílias. Até setembro de 2025, 74 venezuelanos foram inseridos formalmente no mercado de trabalho por meio da iniciativa.

Acompanhamento que sustenta autonomia

Um dos diferenciais do projeto está justamente na continuidade. Mesmo após a contratação ou interiorização, as famílias seguem acompanhadas por três meses, com apoio em moradia, mobiliário, adaptação à cidade, acesso à saúde, educação e mediação com empresas.

Esse suporte reduz vulnerabilidades imediatas e fortalece estabilidade. “Não é apenas oferecer uma vaga. É garantir condições para que essa integração realmente funcione”, resume Jéssica.

A experiência acumulada mostra resultados: famílias que seguem empregadas, retomam estudos, ampliam renda e constroem novos projetos de vida em território brasileiro.

Reconstrução com protagonismo

A trajetória de Jeisxon mostra que reconstruir a vida em um novo país exige proteção, oportunidades e relações de confiança capazes de sustentar escolhas de longo prazo.

“Estou agradecido por essa oportunidade. Estamos reconstruindo nossa vida”, afirma.

No percurso entre fronteira, capacitação, acolhimento e trabalho, o que se evidencia é que integração não acontece de forma imediata. Ela se constrói no tempo, por meio de acompanhamento contínuo, dignidade e protagonismo — permitindo que famílias migrantes deixem de apenas buscar refúgio para se tornarem protagonistas de uma nova trajetória.

Migração e Refúgio

Em 2025, o eixo de Migração e Refúgio manteve uma das atuações mais amplas da AVSI Brasil, com mais de 49 mil beneficiários diretos entre migrantes, refugiados, crianças desacompanhadas e famílias interiorizadas, além de centenas de milhares de pessoas alcançadas por ações de informação, proteção e integração. A atuação acompanhou diferentes etapas da jornada migratória, desde acolhimento, documentação e proteção social em Roraima até interiorização, capacitação profissional e reconstrução de trajetórias em novos territórios. O eixo fortaleceu acesso a direitos, proteção integral e inclusão socioeconômica, articulando-se diretamente com cidades inclusivas, justiça, emergências e trabalho.