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Atletas venezuelanos acolhidos em Roraima conquistam oito medalhas em competição paralímpica

Migrantes venezuelanos acolhidos em abrigos geridos pela AVSI Brasil participaram do Meeting Paralímpico, em São Paulo, e conquistaram oito medalhas.

Aymê Tavares – Roraima

Seis atletas venezuelanos participaram, entre os dias 6 e 8 de agosto, da etapa final do Meeting Paralímpico Loterias Caixa, realizada no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo (SP). Representando Roraima, os atletas que treinam no Centro de Referência Paralímpico de Roraima (CRP/UERR/CPB) conquistaram oito medalhas, sendo três de ouro. Cinco dos seis integrantes da delegação terminaram suas provas no pódio.

A participação marca mais um passo na trajetória de atletas migrantes e refugiados venezuelanos que encontraram no esporte uma oportunidade de integração, desenvolvimento e construção de novos projetos de vida no Brasil.

Eduardo Ramon Sanchez, Gabriel José Rojas, Jose Raul Avilez, Julio Antonio Vilassana, Ruben Dario Mata Alcocer e Martin Medrano competiram nas classes F44, F55 e F57, nas provas de lançamento de dardo, lançamento de disco e arremesso de peso.

Atualmente, 26 refugiados venezuelanos são acompanhados pelo Centro de Referência Paralímpico de Roraima, com maior concentração de atletas no atletismo. Desde 2021, aproximadamente 50 pessoas que chegaram ao projeto a partir de abrigos humanitários já tiveram acesso às atividades esportivas.

Uma viagem que terminou em medalha

Entre os atletas que participaram da competição está Gabriel José Rojas, de 45 anos. Atualmente vive no Abrigo Rondon 5, em Boa Vista, e conta que vive uma relação de longa data com o esporte.

Na Venezuela, ele praticava basquete. Depois de sofrer um acidente de trânsito e passar a utilizar cadeira de rodas, encontrou no esporte uma nova forma de seguir em frente. No Brasil, passou a treinar na Vila Olímpica e ampliou sua experiência para diferentes modalidades do atletismo, incluindo lançamento de dardo e arremesso de peso.

Antes de viajar para São Paulo, Gabriel compartilhava a expectativa de viver uma experiência inédita: seria sua primeira viagem de avião.

“Estou ansioso pela viagem. Nunca entrei em um avião, estou nervoso e contente com essa viagem. Para todos nós fará muito bem, e se voltar com medalha é melhor ainda”, contou o atleta antes do embarque.

A viagem terminou de forma ainda mais especial. Gabriel conquistou uma medalha na competição e voltou a Boa Vista levando consigo além do resultado esportivo, mas também uma nova experiência.

Para ele, porém, as medalhas são apenas parte das conquistas proporcionadas pelo esporte.

“A gente se sente vivo, se sente útil. É incrível. Tenho colecionado medalhas, bons amigos e boas lembranças”, afirma.

Gabriel conta que o esporte também foi fundamental em um momento difícil de sua vida.

“O esporte mudou tudo, toda a minha vida. Teve um tempo que eu não queria viver, estava passando por algo difícil, e o esporte me salvou.”

Hoje, ele vê no esporte uma ferramenta de transformação e sonha em continuar competindo e conhecendo novos lugares por meio das competições.

“Eu digo isso por mim e por todos os atletas que conheço: o esporte são nossas vidas e é uma forma de mudar nosso estilo de vida. Nos faz crescer, melhora muito e meu sonho é continuar viajando pelo esporte e competir até onde for possível.”

Esporte como caminho de integração

A presença dos atletas venezuelanos em competições nacionais é resultado de um trabalho iniciado em 2021, quando foi estabelecida uma parceria para ampliar o acesso de pessoas refugiadas com deficiência às atividades esportivas.

Segundo Vinicius Denardin Cardoso, supervisor do Centro de Referência do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) em Roraima, a iniciativa surgiu a partir da identificação de uma necessidade específica entre a população venezuelana que chegava ao estado.

“Em 2021, firmamos parceria com a Operação Acolhida, do Ministério da Cidadania, porque tínhamos uma massiva migração de refugiados venezuelanos e logo notamos que havia pessoas com deficiência que precisavam de um apoio mais específico”, explica.

Para os atletas, o esporte representa não apenas a possibilidade de competir em alto nível, mas também de fortalecer vínculos, desenvolver autonomia e construir novas experiências no país de acolhida.

Gabriel resume esse sentimento ao falar sobre as pessoas que fizeram parte de sua trajetória no Brasil. “Eu agradeço aos meus professores, todos eles são incríveis. Agradeço à equipe do abrigo por toda a atenção com a gente, todo cuidado, sempre que precisamos deles.”

A conquista em São Paulo amplia a trajetória desses atletas e mostra que o acolhimento pode abrir caminhos para que pessoas migrantes e refugiadas desenvolvam seus talentos, conquistem novos espaços e construam novas histórias por meio do esporte.